Tem uma entrevista do Adriano Imperador. Acho que é a mesma em que ele fala que não consegue beber só uma cervejinha. Ele está falando sobre a época em que decidiu largar tudo na Europa e voltar para o Brasil. Diz que tinha tudo, mas pergunta: “E daí? Cadê a minha felicidade?”. Ele perdeu o pai pouco tempo antes.
Depois que o meu se foi, eu consegui escutar a mesma frase de novo e entender completamente o seu significado.
Infeliz, apesar de todos os fatores objetivos à minha volta, reunindo todos os privilégios que pude durante a vida, sem plano B, eu tomei a minha decisão mais maluca. Eu decidi que ia “chutar o balde”: abrir mão de uma carreira inteira como advogado, deixar aquela estrada asfaltada para um “futuro brilhante”. Objetivamente, eu tinha tudo o que jamais ousei sonhar. Mas, estranhamente, não era aquilo que eu queria.
No dia do chute, falei para a minha mãe que aquele dia era o dia e eu precisava de um abraço de mãe. Ela não sabia bem o que eu queria dizer. Mas me abraçou forte e, levantando o punho, como quem comemora um gol, disse: “Vai lá, meu filho”. Ela também não deve se lembrar disso. Mas é disso que eu lembro todos os dias, enquanto ela continua sem me cobrar nenhum palmo, mantendo a liberdade como um dos meus maiores privilégios.
Eu vomitei no caminho aquele dia. Mas coloquei o balde para cima.
Para meu alívio, meus chefes eram meus amigos. Eles me conheciam e me deixaram me sentindo em paz.
Eu abri mão de tudo para pensar. Para pensar mais claramente sobre a felicidade. Mas não a felicidade em si ou a felicidade para os outros: a felicidade para mim, como único e completo espectador da minha própria vida.
Eu poderia esquecer do futuro por algum tempo, ir vender a minha arte. Mas eu permaneci inquieto, me interessando por coisas aqui e ali, num mergulho profundo de autoconhecimento.
Peguei meu tempo livre e fui ensinar para crianças. Não sobre Direito. Sobre computação. Mais aprendi do que ensinei. Os clichês não são clichês à toa.
Então, em algum momento, eu tive uma ideia. Um “E se?” foi crescendo dentro de mim. Talvez fosse a oportunidade para conectar os pontos e costurar boa parte da diversidade de ideias que trazia comigo. Alguma exploração depois e eu tomei a minha segunda decisão mais maluca: aprender a construir, passo a passo, detalhe por detalhe, uma empresa inteira de tecnologia. Sem o compromisso de dar certo. Mas com o compromisso de terminar.
Na cabeça, sempre a lição de ter “brio” para aprender as coisas difíceis. (Aliás, se eu fosse tatuar alguma coisa, talvez fosse um desenho do Clóvis de Barros Filho falando para ter brio).
Fui seguindo com a ingenuidade de quem aprende a construir um barquinho e acha que pode fazer um navio. Sozinho, madrugadas, computadores e todo o absurdo conhecimento disponível para quem quiser procurar. E eu queria.
Afiei a minha habilidade de procrastinar produtivamente. E de parar, simplesmente parar, quando necessário.
Anos se passaram.
Centenas de milhares de linhas de código.
Uma corrida frenética (e impossível) atrás da tecnologia mais nova.
Algumas linguagens e alguns conceitos em inglês.
Overthinking. Overengineering. Quase mil commits.
Vários prazos estabelecidos e quebrados.
Até que o último prazo foi perfeito: “Depois da Copa”. Porque depois da Copa é depois, não é no dia seguinte.
A Copa passou. E eu vejo tudo o que planejei pronto.
Agora, é aquela: “Falta só eu testar uma última vez”.
Ufa! Como foi bom até aqui!
Tem uma música do Caetano Veloso que diz: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. A dor é constante, mas é possível experimentar a delícia de ser assim: obcecado por aprender sobre tudo, um pouco doido talvez.
Nunca pareceu suficiente. Mas, aqui, há finalmente um respiro profundo, um “calma, terra firme!”.
Neste instante, não me importa se está perfeito (nunca estará). Não me importa se vai dar certo, se vai vingar. Daqui a pouco, importará. Virá companhia, virão olhares externos. Tudo ficará bagunçado.
Mas agora não. Agora eu estou em paz.
Só o que me importa é que eu já sou diferente, já sou melhor. Estou satisfeito. Dentro da minha própria medida.
Mas e aí, qual o final da história?
Quem falou em final? Quem falou em meio? É tudo, sempre, um grande início. E é melhor que seja assim.
Vai ser lento, vai ser no meu tempo; quando der, eu vou te falando.
Mas agora não. Vou curtir a minha onda aqui só mais um pouquinho.
[Só um texto: escrito, sobretudo, para o meu eu futuro. Para que tenha um pouco de orgulho e, quando o mundo estiver desabando de novo, lembre-se de respirar.]